1 de agosto de 2012

CLOSER – PERTO DEMAIS: um olhar sobre o amor na pós-modernidade


Closer – Perto Demais ( Closer, EUA, 2004) dirigido por Mike Nichols, é baseado na peça teatral  de Patrick Miller e conta a história de quatro pessoas  Natalie Portman (Alice) uma stripper, Jude Law (Dan), um jornalista e escritor fracassado, Júlia Roberts (Anna), uma fotógrafa bem sucedida e Clive Owen (Larry), um médico igualmente bem sucedido, que se encontram por acaso, se relacionam e formam juntos uma espécie de “quadrado amoroso”. Se traem, se amam, se odeiam e mentem uns para os outros. Assim, Anna recém divorciada conhece e seduz Dan, mas acaba se casando com Larry. Dan mantém um caso secreto com Anna na medida em que namorava Alice que por sua vez tem um caso-de-uma-noite-só com Larry. Na verdade, o filme é um desenrolar de traições, transas e relacionamentos entre os  casais. Tem ótimas atuações, roteiro e diálogos inteligentes e uma boa trilha sonora, tanto que rendeu dois globos de ouro de ator e atriz coadjuvante para  Owen e Portman. É acusado por alguns de ser imoral, embora não contenha cenas de nudez, nem de sexo explicito, mas choca e provoca bastante pela forma tão sincera, vulgar e violenta que as personagens se tratam consigo mesmas e com os seus pares. Isto é visível, por exemplo, nas cenas em que Dan ( fingindo ser uma mulher) conversa com Larry no computador em um diálogo bem pornográfico. Mas, ao mesmo tempo em que os relacionamentos entre as personagens é marcado por uma sinceridade grosseira, muitas vezes, é permeados por mentiras criadas para sustentar suas traições e até sentimentos.


 “Closer” significa “mais perto” e serviria como uma figura de linguagem,  para se referir a forma como se deve ver as pessoas e relacionamentos, isto é, para entendê-los  é melhor olhar “de perto” e ,claro, você não vai gostar deles  depois disso, pois quando se entende de fato as pessoas você as odeia. Além disso, a interioridade e as contradições dos relacionamentos afetivos em Closer, nos leva a lançar uma perspectiva sociológica sobre o filme, o que nos remete às análises de Zigmunt Bauman em Amor Liquido – a fragilidades dos relacionamentos, onde são discutidas  os relacionamentos humanos na sociedade pós-moderna. Segundo o autor,  as relações afetivas são marcados pelas inconsistências, superficialidade de sentimentos e visam apenas na satisfação do próprio ego. Na visão de Bauman o amor na contemporaneidade como resultado das influências  sócio culturais reflete as características do processo econômico-social da modernidade líquida: sem regras, volátil, fluído voltado apenas ao prazer do consumo ( uso) imediato, o que acaba gerando sofrimento, angústia e solidão.

O egoísmo e as contradições dos relacionamentos humanos em tempos líquidos  também podem ser verificados em Closer, quando, por exemplo, Dan termina o relacionamento  com Alice e revela sua traição com Anna, mas embora a ame e por isso não quer machucá-la. Ela não entende tal contradição e pergunta porque ele faz isso e ele justifica que será mais feliz com a outra mostrando uma imaturidade egoísta do mesmo modo que Alice ao dizer: “ Ninguém te amará tanto como eu. Porque amor não é suficiente. Sou eu quem sempre parte. Eu é que deveria deixá-lo. Sou eu quem vai embora.” Ainda, assim, Dan a beija e diz que a ama e a impede de partir, mais uma das contradições descritas por Bauman quando afirma que embora as pessoas tenham o desejo de se manter preso ao relacionamento, mas não sabe como fazer isso. Ou seja,  ainda resguarda os objetivos do amor romântico tradicional cujo processo de construção era bem mais longo e demorado, mas o individualismo e o narcisismo pós-moderno não permite que se comprometam tanto assim porque desejam  ter outras experiências. Marcado pela frase de Anna a Dan quando fala  “Você não sabe o básico do amor porque você não entende compromisso”,   o que é característica de uma geração cheia de liberdade, mas com pouca capacidade de se comprometer.

Ao problematizar as relações humanas, Closer, nos instiga a ver “de perto” as fraquezas e as contradições dos laços afetivos de nosso tempo, nos fazendo olhar mais atentamente a própria natureza humana, muitas vezes cheia de crueldades, vinganças mesquinhas como a de Larry quando exige que sua esposa Ana ( já  com um relacionamento com Dan) transe com ele antes de assinar o divórcio como forma de se vingar dele por tê-lo traído com ela. Além disso, instigar a olhar as pessoas “ de perto” seria ao mesmo tempo uma crítica ao modo  superficial como as pessoas são vistas na pós-modernidade. Há pouca capacidade de perceber e conhecer o “outro” e especialmente de se entregar ao  outro.

O filme, portanto, serviria como uma tentativa de explicação a fragilidade, contradições e egoísmo nos relacionamentos da modernidade líquida, demostrando as incompetências e impotências dos humanos diante dos seus sentimentos e desejos. Muitos o acusam de ser chato e entediante, mas acho que é um filme que não atende a todo tipo de público., especialmente pela forma tão crua e sincera com  que fala dos sentimentos humanos e da forma como expõe nossos egoísmos. É um tipo de cinema voltado muito mais para pessoas que gostam de histórias próximas a realidade; que te levam a pensar, pois Closer não é simples de entender, especialmente para uma plateia acostumada somente com “vilões” e “mocinhos”, já que lá é como a vida real: não tem bom, nem mal.



Assista ao trailer: